Review de Coprólitos do Marcatti

Capa

Capa

Marcatti sempre foi um autor independente que fez sua própria história e se mantém na ativa ainda hoje com iniciativas louváveis e mantendo o seu pioneirismo na publicação autoral independente.

Sua última iniciativa foi o lançamento de uma coletânea dos melhores e mais escatológicos quadrinhos de uma longa produção, principalmente dos anos 1980 e 1990, pelos sistema de crowdfunding da Catarse.

Ultimamente temos encontrados várias iniciativas de lançamentos de quadrinhos autorais pelo sistema de financiamento coletivo no Brasil. Algumas acabam não vingando, mas quando temos um autor já mais estabelecido, como foi o caso do Marcatti, o projeto extrapolou a quantia necessária e arrecadou mais do que o dobro exigido.

Mas como não participei do projeto, acabei adquirindo meu exemplar no próprio site que Marcatti mantém e que você pode também adquirir outras obras dele.

O álbum Coprólitos tem a marca de ter sido impresso de maneira quase que artesanal, um meio termo entre o fanzine xerocopiado e a produção profissional gráfica. Além da qualidade das obras reunidas, além de uma divertida leitura, revela um cuidado e esmero com a produção gráfica, seja pelo cuidado com a tipografia ou pelo índice remissivo de suas obras.

Dos seus quadrinhos é bom avisar: quem não curte escatologia é melhor não adquirir. Se eu tivesse criado aqui um sistema de avaliação de quadrinhos, daria nota máxima tanto pela iniciativa quanto pelo valor da obra do Marcatti.

Review do Fanzine Quadritos

Capa e Contra-capa de Quadritos 11

Capa e Contra-capa de Quadritos 11

Falar do Fanzine Quadritos é falar do saudoso tempo dos fanzineiros no Brasil: no final da década de 1980 e começo dos anos 1990 o Brasil viveu um período glorioso da efervescência dos fanzines.

Cópias xerocadas, grampeadas uma a uma, com artigos escritos com máquinas datilográficas e recheadas de quadrinhos independentes circulavam pelo Brasil inteiro, com a ajuda dos Correios.

Muito antes da internet promover o acesso a informação no Brasil e no mundo, era nos fanzines que buscávamos o novo e o inusitado na produção independente brasileira e no mundo.

Enquanto hoje encontramos uma certa dificuldade na imensa variedade de fontes de informação que a internet proporciona, na época áurea dos fanzines cada novidade era absorvida com sede incontida. Ter participado deste momento é motivo de orgulho ainda hoje.

Na história do Quadritos esta publicação foi um dos poucos que se destacaram e se tornaram uma referencia para todos que se iniciavam pelo universo dos fanzines.

Haviam muitos fanzines, e eu mesmo cheguei a editar alguns deles, mas alguns tinham o dom de merecerem ser o centro das atenções e aglutinavam o chamado “movimento”. Outras publicações foram o Psiu, o SingularPlural e a Marca de Fantasia.

Não cheguei a ter uma participação tão ativa naqueles tempos: ainda era um adolescente que não sabia o que queria, mas gostava daquele mundo de trocas de fanzines, de editar seus próprios quadrinhos, de escrever sobre eles e ter uma voz e ser ouvido por alguém. Mas o pouco do que participei me deixou boas lembranças e recentemente resolvi ir atrás de quem me lembrava que editava os fanzines, com a ajuda do onipresente Google.

Assim fazendo uma rápida pesquisa me deparei com o Blog do Quadritos, e que neste ano de 2013 seu criador Marcos de Freitas retomou seu fanzine da época em que editava e vem promovendo assim um revival destes áureos tempos que o fanzines circulou pelo Brasil naqueles tempos.

Quadritos no.10

Quadritos no.10

Quando recebi minha encomenda pelo correio foi deja vu: lá estavam os fanzines envelopados com todo cuidado para chegar a mim. Foram quatro edições adquiridas: o Quadritos de no.10 e 11, o especial Monstros dos Fanzines no.1 com Joacy James e o Quadritos Extra no.1 com Vaughn Bodé. Todas as edições impressas em offset e papel couché 90g, muito bem impressas e com qualidade excepcional.

Na edição de no.10 o Quadritos retoma a numeração de onde parou e de certa forma é comemorativa dos 26 anos de história, republicando quadrinhos de artistas consagrados deste período: Flavio Colin, Will e Laudo, Flávio Calazans, Marina Zlander e Jacob Klemencic, Gazy Andraus e Mozart Couto.

São 40 páginas dedicadas ao quadrinho independente brasileiro, pioneiros do século passado! Retoma de certa forma a tradição do fanzine como ponto de partida de revelar artistas e valorizar a história do quadrinho brasileiro.

Quadritos no.11

Quadritos no.11

E a edição de no.11 do Quadritos ressurge como um verdadeiro tomo: 100 páginas reunidas com o melhor de quadrinhos e resenhas sobre diversos assuntos, além da capa colorida por Emir Ribeiro.

Encontramos os seguintes artistas: Bira, Flávio Calazans, Gazy Andraus, Luciano Irthum, Henrique Magalhães, Edgard Guimarães, do próprio Marcos Freitas e Batata, do Emir Ribeiro e de Vaughn Bodé.

Além dos quadrinhos, mais alguns artigos sobre reviews e uma longa entrevista com Calazans que reconta um pouco da história deste momento que os fanzines viveram nos anos 1980 e a reafirmação do quadrinho nacional nos anos 1990 com as publicações independentes daquela época.

O criador do Quadritos Marcos Freitas atua também como um publisher independente: além de sua publicação criou iniciativas para publicar histórias em álbuns fechados, como o Monstros dos Fanzines, que em sua primeira edição reuniu boas histórias de outro artista que fez história nos fanzines o Joacy Jamys.

Para quem quiser conhecer e apoiar esta iniciativa é só entrar em contato pelo Blog do Quadritos ou enviando um email para fanzinequadritos@gmail.com. Em tempo: os exemplares são muito baratos: só para se ter uma idéia o Quadritos no.11 custa somente 10 dilmas, com mais o custo de Correios por 2 dilmas.

Joacy Jamys

Joacy Jamys

Vaugh Bodé

Vaughn Bodé

Revista Circo no. 1 Quadrinhos da Babilônia com Alcy, Glauco, Laerte, Luiz Gê e o melhor do quadrinho internacional

circo

A revista Circo só cheguei a conhecer no número 6, lançada em outubro de 1987, e na época acabei comprando mais pelo impulso pois estava viciado em quadrinhos, e já tinha lido e comprado de tudo e se bem me lembro na banca só tinha aquela edição sobrando. Pela graça do destino comprei, me apaixonei e foi então que comecei a correr atrás das primeiras edições para completar a minha coleção.

Mas como não tinha acesso a nenhuma banca mais especializada, o único caminho era tentar na base da sorte e fuçando em algumas bancas que vendiam revistas usadas, e em cerca de um ano, completei a minha coleção de Circo.

* * * *

Com a proposta de publicar quadrinho de humor nas livrarias, a Circo Editorial do Toninho Mendes surge trazendo autores como Luiz Gê, Angeli, Laerte, Ciça, Glauco, Paulo e Chico Caruso como seu time principal.

Na esteira do “sucesso” da revista Chiclete com Banana, a Circo Editorial se arrisca então com uma proposta ousada: surge a revista Circo, como coletânea para o bom material europeu que continuava inédito por aqui e a abertura para o bom quadrinho nacional que não tinha espaço para publicação regular em bancas.

A revista Circo sobreviveu por corajosos 8 números, com periodicidade bimestral, teve uma edição especial e uma outra edição em formato poster, ambos com quadrinhos do Laerte.

* * * *

Um grande artista nacional que foi publicado na revista Circo foi o Luiz Gê, que era o editor da revista e sempre me perguntei porque será que depois desta época ele sumiu do mercado de quadrinhos nacional, só publicando esporadicamente uma coisa e outra.

Luiz Gê era um artista completo: suas histórias tinham argumento, seus diálogos eram bem construídos, havia sempre um bom enredo e seus desenhos passavam profundidade, beleza e sabiam explorar muito bem a textura gráfica. Talvez pela sua formação em arquitetura, desenvolveu um outro olhar na forma de construir uma página de quadrinhos, e realmente se destacava dos demais autores na revista Circo.

Virei e sou um fã de seu trabalho até hoje: não me desfiz da minha coleção da revista Circo justamente pelo seu quadrinho. Uma pena que hoje em dia muito pouco se vê de seu trabalho. Mas na internet a gente fuçando acha coisa muito bacana e compartilho um link sobre seu álbum Avenida Paulista, que ainda não adquiri mas está na minha lista de compras até o final do ano.

* * * *

A revista Circo procurou em cada número explorar uma temática: neste número 1 encontramos o tema urbano, as cidades e suas paisagens de concreto. A segunda página conta com um detalhe de um quadrinho, mas sem referência sobre o autor, e a primeira história da revista por Luiz Gê funciona como um editorial da proposta da revista:

circo1

Um detalhe da arte do Luiz Gê: “Ah, que interessante! É sempre animado assim?

circo2

Na página 7 finalmente encontramos o índice da edição:

circo3

Um detalhe dos créditos da revista e da data de sua publicação:

circo4

Agora é a vez do Laerte com os seus Piratas do Tietê. Entre cada história encontramos um detalhe de uma paisagem urbana.

SAMSUNG CSC

E um detalhe da arte do Laerte:

circo6

Agora vem uma atração internacional: Torpedo 1936 com “Tempos Difíceis” por Abuli e Bernet. Este personagem surge pela Circo, mas depois reaparece na revista Animal e tem alguns de seus álbuns publicados pela L&PM editores.

circo8

Um detalhe de Torpedo:

circo7

Agora vem o Geraldão pelo Glauco.

circo10

Um detalhe hilário da arte do Glauco:

circo9

Agora tem a participação de outro autor nacional: Alcy.

SAMSUNG CSC

Na página central um poster com a continuação da história do Alcy:

circo12

Depois uma história meio regular de dois artistas europeus: Dionnet e Margerin, com “O homem do telefone”.

circo13

Mais um detalhe deste quadrinho europeu:

circo14

Em seguida mais uma história escrita e desenhada em duas mãos, que dava uma ideia do que estava por vir no futuro por Laerte e Glauco.

circo15

Outro detalhe desta genial história:

circo16

Quase fechando a revista o melhor da edição: Luiz Gê com “FUTBOIL”.

SAMSUNG CSC

Mas o que quer dizer “FUTBOIL”? Luiz Gê responde:

circo18

Uma mostra dos livros publicados pela Circo Editorial com um anúncio de página inteira, com número de páginas, preços (na época era o cruzeiro!) e formato.

circo19

E fechando a revista outra atração de peso: Liberatore desenhando uma história do Smith, mostrando a beleza de uma boa arte em preto e branco.

circo20

Mais um detalhe da arte de Liberatore, mostrando a boa arte-final do desenho com pincel de nanquim.

circo21

Na penúltima página surge um personagem da revista convidando a todos a aguardarem a segunda edição.

circo22

Na última capa mais um anúncio para a Chiclete com Banana:

circo23

Revista DumDum

image

A capa da revista DumDum no. 1 (2a. edição).

Sobre a revista encontrei um post do Allan Sieber no seu Blog talktohimselfshow que resume bem o histórico desta edição:

“Nos final dos anos 80 apareceu em Porto Alegre uma revista em quadrinhos chamada Dumdum capitaneada pelos bagaceiros Adão Iturrusgarai e Gilmar Rodrigues.

O primeiro número causou furor, uma revista em parte financiada pela prefeitura de Porto Alegre com piadinhas sobre como fazer sexo oral com débeis mentais e outras pérolas.

Os caras inclusive foram processados mas se deram bem.

A revista durou 3 maravilhosos números, e além do Adão tinha caras como Jaca, Schiavon , Pedro Alice e Fabio Zimbres, uma lindeza.”

Soube da DumDum por algum comentário lido em alguma revista, principalmente pelo escândalo sobre o dinheiro público ter bancado parte da revista, e por sorte lançaram uma segunda edição que chegou até em Campinas, SP. A edição se destaca por alguns autores, e as histórias em quadrinhos falam sobre tudo e abrange todos os estilos.

Naturalmente o Adão Iturrusgarai é o grande destaque e sua obra pemanece muito ativa até hoje. Faço questão de acompanhar suas tiras pelo seu Blog, só não tive grana ainda para comprar alguns de seus originais.

Mas vamos seguir com mais fotos da revista:

image

Na página 2 o índice com as histórias e os desenhistas participantes.

image

Um detalhe sobre os editores Adão Iturrusgarai e Gilmar Rodrigues e o apoio dado pela Prefeitura de Porto Alegre. Só não consta a data da publicação.

image

Um dos grandes destaques da revista: Jaca e Gilmar Rodrigues, em uma história sobre o boxe.

image

Uma divertida história do Adão, com sangue e violência.

image

Outro recurso editorial da época que começou com a revista Animal e seu encarte Mau, foi colocar uma revista dentro de outra, e neste caso aDumDum vinha com A Bala, um encarte de 6 páginas com alguns artigos e mais histórias curtas e tiras.

image

Na página central de A Bala: a estética aqui é inspirada nos fanzines, com colagens e diagramação meio suja.

image

Outra história de destaque do Adão sobre o amor incondicional dos homens pelos seus animais de estimação!