Revista Animal no.3

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Animal no. 3

Continuando com a nossa coleção da revista Animal, vamos conhecer o terceiro número, editada pela VHD Diffusion no longínquo ano de 1988.

Meu exemplar na verdade se encontra em um estado não muito apreciável, a capa está solta e a contra-capa se perdeu. As páginas estão um pouco amareladas, mas ainda continua legível. A capa trás  como destaque o personagem da série de Burton&Cyb, ampliada da história que consta na revista e publicada pela primeira vez no Brasil, escrita pelo Antonio Segura e desenhada pelo Jose Ortiz.

A revista contém 68 páginas, sendo 16 coloridas em papel especial, 32 páginas em preto e branco em papel couché e 16 páginas em papel jornal com o encarte MAU.

Esse tipo de impressão era um diferencial da Animal em relação a outras publicações e na época trazia uma diferença de qualidade que chamava muito a atenção nas bancas. Era uma maneira de mostrar ao público um quadrinho adulto, com alta qualidade artística mas com temáticas underground, ao contrário do que estávamos acostumados com revistas impressas só em papel jornal e tudo em preto e branco.

Burton&Cyb: Eu, robot. Você, escroque!

Burton&Cyb: “Eu, robot. Você, escroque!”

Assim a primeira história mostra a arte de Ortiz com todo o seu colorido e expressividade nos detalhes. Nas revistas europeias cada série tinha histórias curtas com 8 páginas, e eram publicadas periodicamente, até serem reunidas em um luxuoso álbum de quase 50 páginas em capa dura ou cartonada e colecionáveis.

A série de Burton&Cyb fez parte da invasão criativa dos autores espanhóis pelo mundo dos quadrinhos nos anos 80, sendo publicados em vários países, mas infelizmente no Brasil só foram publicados algumas poucas histórias.

Cyb

Cyb

Seus personagens são dois anti-heróis que vivem pelo universo aplicando golpes, ganhando dinheiro as custas dos outros e vivendo loucas aventuras com  os mais variados personagens extra-terrestres.

E tudo ambientado num ambiente sci-fi, que ao contrário do que se costuma encontrar em histórias do gênero, no futuro mesmo o homem indo ao espaço, os problemas continuam os mesmos: violência, roubo, putaria, etc.

Em seguida encontramos o tradicional índice da revista, com um desenho da Mariza Dias Costa, ilustradora da Folha de São Paulo. Aqui temos uma ideia geral do conteúdo da revista.

Índice

Índice

E mais um detalhe da continuação da história anterior do personagem principal trazido pela Animal: Ranxerox!

A sinopse da história até esta edição

A sinopse da história até esta edição

Continuando com outro artista publicado pela primeira vez também no Brasil o italiano Massimo Mattioli com seus personagens inspirados nos cartoons norte-americanos, mas já publicados aqui em outro post.

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Um grande artista europeu mas que dispensa apresentações é o italiano Milo Manara, com seu desenho inconfundível. Esta curta história do Manara faz parte do álbum Curtas Metragens, editado pela L&PM também em 1989, e que reuniu oito histórias com temáticas sensuais, oníricas e de fantasia, escritas e desenhadas por esse grande mestre do quadrinho mundial.

O último e trágico dia de Gori Bau e Callipigia Sister

“O último e trágico dia de Gori Bau e Callipigia Sister”

As mulheres de Milo Manara

As mulheres de Milo Manara

Em seguida encontramos a coluna de quadrinhos TAM-TAM, que também servia como um editorial e apresentava os desenhistas para os brasileiros e contava um pouco da história de cada um.

Também noticiavam algumas notícias do mundo dos quadrinhos (com certo atraso pois a periodicidade da revista não era seu forte) e assim a gente ia se inteirando sobre o que acontecia lá fora. Esse era o mundo sem a internet nos anos 1980!

TAM-TAM

TAM-TAM

E mais um detalhe da coluna TAM-TAM: a notícia da morte de Andrea Pazienza, um dos criadores de Ranxerox e até então desconhecido no Brasil.

No álbum Ranxerox, da editora Conrad, lançada em 2010 com toda a série completa, temos um artigo muito bom que conta a história por trás do surgimento da Frigidaire e pretendo também um dia escrever algo a respeito neste blog.

Ranxerox de Pazienza

Ranxerox de Pazienza

Continuando com a série Kraken escrita por Antonio Segura e desenhada magistralmente pelo Jordi Bernet, são mais outra dupla espanhola que fez sucesso pelo mundo e são muito reverenciados.

A série trata de um monstro conhecido por Kraken, que vive nos esgotos de uma gigantesca metrópole, e são patrulhados por uma polícia cujo personagem principal vai enfrentando criminosos e o lado podre da sociedade.

Na França saiu neste ano um álbum com série toda reunida, veja neste link.

Kraken

Kraken

Mais uma história do meu herói preferido: Edmundo, o Porco! Escrito por Martin Veyron e desenhado por Jean-Marc Rochette.

No original em francês Edmond le Cochon surgiu em 1978 inspirado pelo underground americano e fez sucesso na França, sendo publicado pela cultuada revista L’Écho des Savanes, e foram publicados quatro álbuns com o cínico porco entre 1980 e 1993.

 Ambientado numa fazenda, conta a história do porco Edmundo cujo trabalho é procriar as fêmeas e engordá-las para o abatedouro. Ou seja um gentle-man!

Edmundo, o Porco

Edmundo, o Porco

Sacanagem!

Sacanagem!

Surge nesta terceira edição uma seção de cartas! A comunicação com seus fiéis leitores é a base do sucesso da revista. Apesar que por conta de falta de espaço logo abandonaram a seção de cartas.

Os elogios e o quebra-pau dos leitores!

Os elogios e o quebra-pau dos leitores!

O Lobo e o Cordeiro por Bernard Chiavelli é outro representante do quadrinho francês, que iniciou sua carreira nos anos 70 e publicou em outra tradicional revista francesa Pilote.

História clássica do Lobo e o Cordeiro

História clássica do Lobo e o Cor

Final surprendente!

Final surprendente!

Mais outra novidade: Magnus com  “A parede pintada”.

Italiano cujo verdadeiro nome é Roberto Raviola, famoso por seus fumetti neri, quadrinhos noir em italiano. Veterano, iniciou sua carreira em 1964, fez várias séries de sucesso e participou de todas as revistas de quadrinhos de respeito como Métal Hurlant e L’Écho des Savane.

Mas o principal motivo pela qual está sendo publicado pela Animal é que futuramente sua obra mais insanamente divertida e pornográfica Necron será publicada em edição especial, e da qual vamos dedicar um post só para ele.

Detalhismo de Magnus nos desenhos

Detalhismo de Magnus nos desenhos

Um quadrinho de humor europeu, outro francês René Pétillon, que apresenta seu personagem Jack Palmer, um detetive que fez sua estréia em 1974 e foi sucesso na época, sendo publicado por várias revistas já citadas anteriormente.

Uma história meio tampa-buraco?

Uma história meio tampa-buraco?

E o gran finale da revista: Ranxerox! Já escrevi um pouco sobre ele antes, e já não tenho muito assunto para falar, portanto segue algumas imagens legais que selecionei. Seus autores são Tamburini e Liberatore.

Ranxerox!

Ranxerox!

Em manutenção.

Em manutenção.

Sai da frente!

Sai da frente!

No meio de amigos

No meio de amigos

No final!

No final!

E para não ficar um post muito longo, vou fazer um outro só com o encarte MAU – Feio, Sujo e Malvado desta edição.

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MUSIC FOR STREETS por Massimo Mattioli

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Animal no.3

Essa história foi publicada na revista Animal número 3 e foi desenhada pelo italiano Massimo Mattioli. Originariamente a história é colorida, mas foi publicada em preto e branco. Então resolvi dar um toque pessoal colorindo algumas cenas para dar um maior impacto na leitura.

Sobre Mattioli: nascido em 1943, fazia desenhos e histórias para revistas infantis na década de 1960, até que desbundou na Frigidaire (1980) com seus quadrinhos de desenhos animados misturados com violência gratuita, terror trash, pornografia e humor negro. Ou seja, um dos autores mais legais de se ler na Animal.

Aliás a grande inspiração da revista Animal foi também a italiana Frigidaire, da qual muitos artistas foram publicados pela primeira vez aqui no Brasil. Vide o caso do Ranxerox.

Mattioli teve um grande destaque nas páginas de Animal, fazendo parte da capa de algumas edições, sendo atração em outras e ajudando a influenciar pelo non-sense alguns desenhistas brasileiros.

Mas segue a história de Mattioli com Music for Streets!

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The end!
Isto é, é o fim, acabou!

Num futuro não muito distante colocarei aqui mais histórias de Mattioli. Aguardem!

Bob Cuspe é a Salvação

E continuando sobre a revista Chiclete com Banana número 1 que comecei neste post, vamos para a primeira história da revista estrelada por um dos principais personagens do Angeli que é o Bob Cuspe, nosso anti-herói!

As páginas estão um pouco “lavadas” pela qualidade da impressão da revista, que infelizmente saiu com muitos defeitos ao longo da edição. Esta é a segunda edição da número 1, lançada quase que três anos atrás do inicio da revista e demonstra a popularidade do Angeli e seus quadrinhos perante o público leitor.

Com esta revista é alcançado um público jovem bem mais amplo que muitos quadrinhos independentes alcançaram até aquela época e influenciou muitos aspirantes a desenhistas (inclusive eu) na forma de fazer seus quadrinhos.

Com toda a certeza Angeli criou uma verdadeira escola de quadrinhos nacionais, influenciando meio mundo daquela época até os dias atuais.

Mas o mais importante é curtir esta história do Bob Cuspe, que aliás conta a sua origem e trajetória, explicando suas motivações pessoais. E ainda continua tão atual nesses tempos em que vivemos.

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E em ano de eleição para 2014 fica a dica: Bob Cuspe para presidente!

Revista Chiclete com Banana no. 1 do Angeli

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Chiclete com Banana número 1 – 2a. edição

A revista Chiclete com Banana faz parte da história do quadrinho nacional recente. Sem a existência desta revista, do seu autor Angeli e dos seus personagens, posso afirmar com certeza que não haveria um quadrinho nacional independente e nem teríamos um amplo público de quadrinho no Brasil.

A Chiclete com Banana foi com certeza o lançamento mais importante da editora Circo, do Toninho Mendes. E nasceu num momento histórico importante no Brasil: Tancredo Neves é eleito indiretamente o primeiro presidente após a ditadura militar, acaba falecendo logo em seguida para dar lugar a José Sarney – que aliás até hoje vive na confortável sombra do poder político – e sobrevive entre 1985  a 1990 enfrentando os mais variados planos econômicos do governo.

O número 1 de Chiclete com Banana foi às bancas em outubro de 1985, quando entrou em cena a chamada Nova República. Depois de 21 anos de ditadura, os generais trocavam a farda pelo pijama. Cambaleante, o país tentava respirar. Em suas 24 edições, a revista presenciou a volta das eleições diretas, o recuo da sacanagem por causa da aids, a inflação delirante, o movimento punk, o congelamento de preços, o modismo new wave e, por incrível que pareça, quatro moedas circulantes: o cruzado, o cruzado novo, a URV e o real” (Antologia Chiclete com Banana, no. 1 Junho de 2000, editora Devir).

O sucesso de Chiclete com Banana era explicado por sua tiragem: inicialmente com tiragem de 20.000 exemplares, pulou para 40.000 na terceira edição e chegou a 110.000 exemplares entre os números 7 e 8, para então se estabilizar nos 60.000 exemplares. E tudo isso com uma periodicidade meio que bimestral, além de algumas edições especiais.

Eu comecei a colecionar a Chiclete com Banana somente no número sete, poia até então ignorava completamente esse tipo de revista. Mas fui começar a gostar de verdade  quando a revista mudou um pouco sua linha editorial, abrindo para mais colaboradores, inserindo mais textos e até colocando um papel melhor e algumas cores. Mas aí já estávamos na 16a. edição.

Com o sucesso da Chiclete com Banana era difícil encontrar nas bancas exemplares usados, então quando a própria editora Circo relançou seus primeiros números é que tive a chance de completar minha coleção.

Editorial da segunda edição da primeira edição. Entendeu?

Editorial da segunda edição da primeira edição. Entendeu?

Página 2 da Chiclete com Banana: Hit Parade

Página 2 da Chiclete com Banana: Hit Parade

Página 3

Página 3

Página 4 - Os créditos da Chiclete com Banana: uma revista quase feita por um homem só.

Página 4 – Os créditos da Chiclete com Banana: uma revista quase feita por um homem só.

Percebam que esta edição não foi muito bem impressa na gráfica: as páginas estão “lavadas” e o preto não é preto.

Um detalhe dos créditos da revista

Um detalhe dos créditos da revista

E apresentando o personagem principal: Bob Cuspe!

Página 5: Bob Cuspe para prefeito! A idéia do voto nulo toma forma!

Página 5: Bob Cuspe para prefeito! A idéia do voto nulo toma forma!

Mas a história do Bob Cuspe vou deixar para um próximo post, assim como o restante da edição.

As informações sobre a Chiclete com Banana e a história do país peguei emprestadas de uma tese muito bacana de uma estudante que publicou seu mestrado em 2012. Você pode baixar essa tese aqui.

 

 

 

 

 

Revista Circo no. 1 Quadrinhos da Babilônia com Alcy, Glauco, Laerte, Luiz Gê e o melhor do quadrinho internacional

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A revista Circo só cheguei a conhecer no número 6, lançada em outubro de 1987, e na época acabei comprando mais pelo impulso pois estava viciado em quadrinhos, e já tinha lido e comprado de tudo e se bem me lembro na banca só tinha aquela edição sobrando. Pela graça do destino comprei, me apaixonei e foi então que comecei a correr atrás das primeiras edições para completar a minha coleção.

Mas como não tinha acesso a nenhuma banca mais especializada, o único caminho era tentar na base da sorte e fuçando em algumas bancas que vendiam revistas usadas, e em cerca de um ano, completei a minha coleção de Circo.

* * * *

Com a proposta de publicar quadrinho de humor nas livrarias, a Circo Editorial do Toninho Mendes surge trazendo autores como Luiz Gê, Angeli, Laerte, Ciça, Glauco, Paulo e Chico Caruso como seu time principal.

Na esteira do “sucesso” da revista Chiclete com Banana, a Circo Editorial se arrisca então com uma proposta ousada: surge a revista Circo, como coletânea para o bom material europeu que continuava inédito por aqui e a abertura para o bom quadrinho nacional que não tinha espaço para publicação regular em bancas.

A revista Circo sobreviveu por corajosos 8 números, com periodicidade bimestral, teve uma edição especial e uma outra edição em formato poster, ambos com quadrinhos do Laerte.

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Um grande artista nacional que foi publicado na revista Circo foi o Luiz Gê, que era o editor da revista e sempre me perguntei porque será que depois desta época ele sumiu do mercado de quadrinhos nacional, só publicando esporadicamente uma coisa e outra.

Luiz Gê era um artista completo: suas histórias tinham argumento, seus diálogos eram bem construídos, havia sempre um bom enredo e seus desenhos passavam profundidade, beleza e sabiam explorar muito bem a textura gráfica. Talvez pela sua formação em arquitetura, desenvolveu um outro olhar na forma de construir uma página de quadrinhos, e realmente se destacava dos demais autores na revista Circo.

Virei e sou um fã de seu trabalho até hoje: não me desfiz da minha coleção da revista Circo justamente pelo seu quadrinho. Uma pena que hoje em dia muito pouco se vê de seu trabalho. Mas na internet a gente fuçando acha coisa muito bacana e compartilho um link sobre seu álbum Avenida Paulista, que ainda não adquiri mas está na minha lista de compras até o final do ano.

* * * *

A revista Circo procurou em cada número explorar uma temática: neste número 1 encontramos o tema urbano, as cidades e suas paisagens de concreto. A segunda página conta com um detalhe de um quadrinho, mas sem referência sobre o autor, e a primeira história da revista por Luiz Gê funciona como um editorial da proposta da revista:

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Um detalhe da arte do Luiz Gê: “Ah, que interessante! É sempre animado assim?

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Na página 7 finalmente encontramos o índice da edição:

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Um detalhe dos créditos da revista e da data de sua publicação:

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Agora é a vez do Laerte com os seus Piratas do Tietê. Entre cada história encontramos um detalhe de uma paisagem urbana.

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E um detalhe da arte do Laerte:

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Agora vem uma atração internacional: Torpedo 1936 com “Tempos Difíceis” por Abuli e Bernet. Este personagem surge pela Circo, mas depois reaparece na revista Animal e tem alguns de seus álbuns publicados pela L&PM editores.

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Um detalhe de Torpedo:

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Agora vem o Geraldão pelo Glauco.

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Um detalhe hilário da arte do Glauco:

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Agora tem a participação de outro autor nacional: Alcy.

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Na página central um poster com a continuação da história do Alcy:

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Depois uma história meio regular de dois artistas europeus: Dionnet e Margerin, com “O homem do telefone”.

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Mais um detalhe deste quadrinho europeu:

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Em seguida mais uma história escrita e desenhada em duas mãos, que dava uma ideia do que estava por vir no futuro por Laerte e Glauco.

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Outro detalhe desta genial história:

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Quase fechando a revista o melhor da edição: Luiz Gê com “FUTBOIL”.

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Mas o que quer dizer “FUTBOIL”? Luiz Gê responde:

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Uma mostra dos livros publicados pela Circo Editorial com um anúncio de página inteira, com número de páginas, preços (na época era o cruzeiro!) e formato.

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E fechando a revista outra atração de peso: Liberatore desenhando uma história do Smith, mostrando a beleza de uma boa arte em preto e branco.

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Mais um detalhe da arte de Liberatore, mostrando a boa arte-final do desenho com pincel de nanquim.

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Na penúltima página surge um personagem da revista convidando a todos a aguardarem a segunda edição.

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Na última capa mais um anúncio para a Chiclete com Banana:

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Revista Piratas do Tietê no. 1 – Humor, quadrinhos e afins do Laerte

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Nos anos de 1990 o Brasil vivia um momento especial no mercado de quadrinhos. Durante décadas o mercado nacional vivia na mesmice do quadrinho de super-herói e afins, enquanto algumas poucas revistas com material underground circulava escondido por aí. Mas eis que de repente, através de alguns poucos corajosos um novo quadrinho independente foi aparecendo nas bancas, para todos terem acesso mesmo que isso ainda não significasse elevadas vendagens.

E até mesmo nos grandes jornais de circulação como o Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo abriam páginas inteiras para divulgar e comentar sobre as novas publicações que estavam surgindo nas bancas. Neste período eu mesmo cheguei a colecionar recortes inteiros de jornal destas matérias, que traziam informações sobre novos autores e das publicações que surgiam nas bancas.

Neste cenário o Laerte surge já como uma figura reconhecida no meio, já que vinha despontando com o seu talento desde a década de 70 através da Balão, surgida dentro da USP, e principalmente pelas tiras publicadas diariamente na Folha de São Paulo, juntamente com Angeli e Glauco. Gostava tanto destas tiras que também cheguei a montar uma pasta inteira com recortes delas.

Mas o Laerte sempre me chamou a atenção pelo tipo de quadrinho que fazia: era engraçado, gracioso e completo. Mesmo comparado com seus pares sempre havia um ponto em seus quadrinhos que era superior, seja na diagramação, nos diálogos, na perspectiva de seus desenhos e nos personagens construídos de forma inspirada.

Laerte criou nesta década de 80 e 90 os muitos personagens, mas com certeza os melhores que se destacam e se identificam com ele estão os Piratas do Tietê. Os personagens surgiram na revista Chiclete com Banana, passearam pela revista Circo, e finalmente ganharam sua versão solo, a Piratas do Tietê, em mais ou menos na metade do ano de 1990.

Como toda publicação alternativa que se preze, era preciso fazer a diferença na banca, e a saída foi o formato. Enquanto o custo de impressão a cores ou papel especial continuava caríssimo, a aposta foi uma publicação com formato incomum com 25,5 cm de largura por 17 cm de altura e uma capa a duas cores (preto e vermelho apenas) e miolo em papel jornal. Este formato sobreviveu por 6 números, até que adotaram um formato mais convencional e uma capa colorida. Mais sobre as edições você pode conferir neste link.

Mas então vamos ao que interessa nesta primeira edição da Piratas do Tietê. Após o impacto da capa e da brincadeira com o logo da Coca-Cola, encontramos uma ilustração do Laerte na segunda capa:

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Na página 3 encontramos o editorial: nada de formalismos, nada de explicações muito óbvias, nem a defesa de nenhuma bandeira. Apenas o niilismo dos Piratas:

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Um detalhe dos créditos da revista com seus colaboradores e idealizadores:

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E agora acompanhem toda a primeira história da revista contando a origem dos Piratas. Resolvi publicar toda ela porque ela é excelente e mostra toda a genialidade do Laerte.

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Em outro post quero colocar o restante da revista Piratas do Tietê. Mas até aqui dá para entender o porque que os personagens dos Piratas conquistaram muitos fãs, principalmente pela mensagem libertária que eles passam.

E terminamos com a contra capa da revista, que é um anúncio da Chiclete com Banana:

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Revista Animal no. 2 – Feio, Forte e Formal

Fuçando na minha caixa de coleções de revistas me deparei com uma surpresa: a revista Animal de no. 1 que eu tinha sumiu! Não sei onde foi parar! Então encontrei a revista Animal de no. 2, mas então não achei a capa dela, pois ela havia se soltado e nessas mudanças acabei perdendo ela. Antigamente eu mantinha minha coleção mais organizada, mas enquanto não tenho um armário legal para guardar, vou deixando esta organização mais para frente.

Mas vamos ao que interessa: a Animal de no. 2! Este exemplar acabei comprando pelos correios, pois só fui tomar conhecimento da existência desta revista quando já havia saído o no. 4. Como ela está sem a capa, vou começar então pelo índice. O desenho que ilustra o índice é do Massimo Mattiolli:

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No detalhe o índice com os autores das histórias publicadas e o conteúdo da revista:

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A história que abre a revista é do Massimo Mattiolli, pela primeira vez publicada na Brasil. O interessante da revista é a publicação em cores dos quadrinhos, um verdadeiro luxo naqueles tempos, mas não em toda a revista, pois senão encareceria seu preço. A violência do quadrinho de Mattiolli era fenomenal, fora o detalhe de misturar personagens infantis com uma temática adulta:

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Mattioli

Em seguida encontramos outro europeu: Jacques de Loustal. Um detalhe de sua arte:

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Loustal

A partir daqui a qualidade do papel da revista muda e começam as histórias em preto e branco. Luc Cornillon é outro europeu com claras influências de Will Eisner.

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Luc Cornillon

Outro destaque da revista são as matérias presentes. Além de trazer informações de cada autor e uma breve biografia, ajudava o leitor brasileiro a se situar no que era produzido na Europa, com notícias de revistas, editoras e artistas de quadrinhos. Para mim foi a descoberta de um novo mundo. A coluna “TamTam” funcionava também como um editorial:

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Nesta coluna encontramos uma clara influência da revista Animal: a espanhola El Vibora, que revelou importantes autores espanhóis e se tornou uma referência no quadrinho mundial como publicação.

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El Víbora

Em seguida encontramos Daniel Torres, expressão da ligne claire, herdeiro do traço de Hergé:

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Torres

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Torres

Depois de um quadrinho limpo, encontramos um mais sujo: Jordi Bernet nos desenhos e Segura Ortiz nos argumentos. A série Kraken é publicada pela primeira vez no Brasil, mas os autores já são conhecidos pelo personagem Torpedo, editado pela L&PM nesta época.

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Segura e Bernet

Agora segue o detalhe do quadrinho do qual foi retirado a capa desta edição de no. 2 da Animal. Se você quer saber como é capa, dá uma olhada no Google que você encontra fácil.

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Segura e Bernet

Agora chegando ao miolo da revista encontramos o encarte MAU – Feio, Sujo e Malvado. Impresso em papel jornal, se diferenciava da revista com um projeto gráfico mais sujo, lembrando a estética do fanzine, misturando musica, quadrinhos, cultura e fanzines.

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Mau: Feio Sujo e Malvado

 Uma página de MAU:

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No detalhe uma tira do Osvaldo Pavanelli

No detalha da contracapa os colaboradores de MAU:

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Os colaboradores do Mau

Dentro da MAU a melhor parte: uma seção de divulgação de fanzines e publicações alternativas: Maudito Fanzine. Você enviava seu fanzine pelos Correios e demorava um pouco, mas eram divulgados e você enchia a sua caixa de correios com cartas solicitando um exemplar seu (na verdade, algumas poucas…):

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Maudito Fanzine

Um quadrinho de A.C. Peres e Sergio Dantas Miranda. Este primeiro foi participante da revista Garatuja, de 1978 pela FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, junto a revista Balão pela USP, que revelou Luiz Gê, Larte, Paulo e Chico Caruso. Um raro momento de resgatar autores nacionais importantes para a história do quadrinho nacional.

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A.C.Peres e Sergio Dantas Miranda

Em seguida uma reportagem sobre os The Blues Brothers, o filme de blues com John Belushi e Dan Aykroyd. Uma época sem a existência da internet, era a única forma de saber sobre cultura nestes tempos.

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The Blues Brothers

Agora vem um dos meus personagens preferidos: Edmundo, o Porco, por Veyron e Rochette, um anti-herói cuja função era engordar seus pares para a degola!

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Veyron e Rochette

Outro detalhe de Edmundo, o Porco:

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Veyron e Rochette

E finalmente o grand finale da revista Animal: a segunda parte da história de RanXerox em Nova Iorque, publicado pela primeira vez no Brasil. Ao invés de publicarem a história por inteiro, optaram por dividi-la em partes, e senão me engano é como foi publicada originariamente na Frigidaire. Sobre Ranxerox e seus criadores Tanino LiberatoreStefano Tamburini merecem um post só sobre eles.

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Tamburini e Liberatore

O impacto que RanXerox trouxe ao quadrinho mundial não tem igual. O hiperrealismo do desenho de Liberatore, o futuro sombrio, o sexismo, as drogas, a violência gratuita encontrada, representava o desencanto dos anos 80. Na verdade esse desencanto nos acompanha até hoje. Mas chega de elucubrações e vamos admirar a arte de Liberatore, do qual sou fã. Em outro post vou colocar aqui o álbum que a Editora Nemo lançou com a série completa de RanXerox.

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Tamburini e Liberatore

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Tamburini e Liberatore

O detalhe da arte de Liberatore impressiona:

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Tamburini e Liberatore

Um dos personagens na história:

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A entrada triunfal de RanXerox:

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Tamburini e Liberatore

Os dois últimos quadrinhos desta segunda parte da história:

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Tamburini e Liberatore

E assim terminamos a nossa revista Animal no. 2.

Revista DumDum

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A capa da revista DumDum no. 1 (2a. edição).

Sobre a revista encontrei um post do Allan Sieber no seu Blog talktohimselfshow que resume bem o histórico desta edição:

“Nos final dos anos 80 apareceu em Porto Alegre uma revista em quadrinhos chamada Dumdum capitaneada pelos bagaceiros Adão Iturrusgarai e Gilmar Rodrigues.

O primeiro número causou furor, uma revista em parte financiada pela prefeitura de Porto Alegre com piadinhas sobre como fazer sexo oral com débeis mentais e outras pérolas.

Os caras inclusive foram processados mas se deram bem.

A revista durou 3 maravilhosos números, e além do Adão tinha caras como Jaca, Schiavon , Pedro Alice e Fabio Zimbres, uma lindeza.”

Soube da DumDum por algum comentário lido em alguma revista, principalmente pelo escândalo sobre o dinheiro público ter bancado parte da revista, e por sorte lançaram uma segunda edição que chegou até em Campinas, SP. A edição se destaca por alguns autores, e as histórias em quadrinhos falam sobre tudo e abrange todos os estilos.

Naturalmente o Adão Iturrusgarai é o grande destaque e sua obra pemanece muito ativa até hoje. Faço questão de acompanhar suas tiras pelo seu Blog, só não tive grana ainda para comprar alguns de seus originais.

Mas vamos seguir com mais fotos da revista:

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Na página 2 o índice com as histórias e os desenhistas participantes.

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Um detalhe sobre os editores Adão Iturrusgarai e Gilmar Rodrigues e o apoio dado pela Prefeitura de Porto Alegre. Só não consta a data da publicação.

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Um dos grandes destaques da revista: Jaca e Gilmar Rodrigues, em uma história sobre o boxe.

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Uma divertida história do Adão, com sangue e violência.

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Outro recurso editorial da época que começou com a revista Animal e seu encarte Mau, foi colocar uma revista dentro de outra, e neste caso aDumDum vinha com A Bala, um encarte de 6 páginas com alguns artigos e mais histórias curtas e tiras.

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Na página central de A Bala: a estética aqui é inspirada nos fanzines, com colagens e diagramação meio suja.

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Outra história de destaque do Adão sobre o amor incondicional dos homens pelos seus animais de estimação!

Revista Chiclete com Banana e Los Tres Amigos

A revista Chiclete com Banana surgiu nos anos 1980 em um importante momento histórico do Brasil: o início da redemocratização e o surgimento de uma cena editorial que revelou novos autores e várias novas revistas nas bancas brasileiras. Sua trajetória foi de outubro de 1985 a novembro de 1990, com exatos 24 números e algumas edições especiais.

Dentro destas edições especiais lançadas existe uma sobre Los Tres Amigos, que reúnem os artistas LaerteGlauco e Angeli em divertidas e hilárias aventuras que representam o melhor de cada desenhista.

Esta edição na verdade é uma re-edição da 1a. edição especial sobre os Los Tres Amigos, mas em formato grande, com cerca de 34 cm por 25,5 cm, um tamanho diferente do comum e que se destacava nas bancas por justamente não caber nas prateleiras normais. Uma iniciativa editorial digna de respeito.

Seguem as fotos da publicação:

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A capa. Notem o preço: Cr$4.000,00 !!

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Um editorial na página 2 e o índice das histórias.

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O índice da edição em detalhes. A foto com Los Tres Amigos é impagável!

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A primeira história “Paris, Texas” que conta a origem do grupo.

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A segunda história  ”León no Perdona!” que apresenta o temível León de Tchácara!

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Na página 15 “Sangre de un Pueblo!” ou melhor dizendo “Glauquito es un hijo da puta!”.

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Na história seguinte “Adondestará Laertón?”, percebam na página anterior uma foto de abertura para cada história. Um capricho editorial.

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Na página central da revista um verdadeiro poster com o desenho dos três artistas: “Vai hablando PepeLegal!”

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O temível “El Gran Manú”!!

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“Duelo de Chihuauas”, com participações especiais de Clark Kent e Jimmy Olsen. Mais no final também aparece o Fantasma.

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Por fim a última história “Por um puñado de Miguelitos”.

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No final da edição encontra-se os créditos. Só não descobri a data certa da edição.

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Na contra-capa o lay-out de outra edição especial em formato grande, que também possuo e fico devendo um post sobre esta revista também.